Megablocos na 23 de Maio afetam hospitais e levam barulho até a UTI

Menos residencial, via atraiu multidão de foliões; gestão Doria vê sucesso

Bloco na 23 de Maio passa ao lado do hospital Beneficência Portuguesa, à esquerda
Bloco na 23 de Maio passa ao lado do hospital Beneficência Portuguesa, à esquerda – Joel Silva/ Folhapress #chegadebarulho 

Anunciada como solução para evitar tumulto em bairros residenciais, a decisão da gestão João Doria (PSDB) de transferir blocos de Carnaval para a avenida 23 de Maio levou transtornos a moradores e a pacientes internados em hospitais da região da Aclimação, Bela Vista e Paraíso.

O entorno da avenida tem ao menos seis grandes centros médicos. Com janelas voltadas para a 23 de Maio, o Beneficência Portuguesa, na rua Maestro Cardim, foi um dos mais afetados.

“As crianças choravam, ficavam irritadas. E o vidro até tremia”, lembra a administradora Manu Ferreira Lopes, 26, mãe de uma bebê de dois meses internada no local.

No domingo (11), quando quatro megablocos passaram pela via, a garota se recuperava de duas paradas cardíacas sofridas no dia anterior.

Além do incômodo, a preocupação era com a concentração dos profissionais diante do barulho. “Na UTI a gente não atende nem telefone porque pode atrapalhar. Quando se trata de bebês, qualquer miligrama pode fazer diferença”, afirmou. Ela ressaltou que adora Carnaval. “Mas não precisa ser assim”.

Com filho na mesma ala, a dona de casa Suellen Padilha, 31, disse que o barulho era tanto que o garoto chegou a abrir os olhos mesmo sedado. Mãe de uma menina de dois anos, Thais  Brochardo, 31, ficou preocupada também com o trânsito na região. “E se acontece alguma emergência e o médico não consegue chegar?”, indagou.

A área teve tráfego carregado em parte do feriado, com bloqueios não previstos. Em pontos da rua Vergueiro, o fluxo de veículos chegou a ser interrompido nos dois sentidos.

Desfile na 23 de Maio tem lixo e aglomerações

A própria 23 de Maio, que deveria ter sido reaberta às 22h de domingo, permaneceu fechada ao longo de toda a segunda-feira (12) “em razão do grande público”, segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), e seguirá fechada até ao menos a noite desta terça (13) –quando estão previstos novos blocos.

A situação gerou problemas em outro hospital da região, o Santa Joana, no Paraíso. Com um bebê internado na UTI, a atendente Ana Paula Mantovani, 36, e o técnico Rodrigo Mantovani, 34, queriam passar o dia com o filho nesta segunda-feira, mas decidiram sair mais cedo para evitar confusão. No domingo, eles tiveram dificuldades na chegada e saída da maternidade.

Já a gestante Juliana Moraes, 39, demorou para chegar ao pronto atendimento da unidade. “Estava sentindo dores e resolvi vir. Tinha muita rua fechada, precisamos fazer muitos desvios, então foi mais difícil. Acho que levou meia hora a mais”, disse.

Houve ainda relatos de transtorno no Hospital do Servidor Público Municipal, na Aclimação, perto da avenida. “Tive que procurar outros caminhos pelo centro para chegar porque as ruas estavam fechadas”, disse um motorista de ambulância que não quis se identificar.

Uma técnica em farmácia do hospital contou que desistiu de voltar para casa e passou a noite no trabalho. “Os funcionários chegaram atrasados, era uma via sacra para ir até o metrô”, afirmou.

Parte dos moradores da região também relatou incômodo com a presença dos megablocos na vizinhança. Na Bela Vista, a síndica Raquel Nicastro teve que ir à polícia após foliões quebrarem um vidro de proteção do prédio.

Na região do Paraíso, a dona de casa Rivamara  Lanis reclamou do mau cheiro. “O pessoal fica descendo as calças no meio da rua, ficou fedendo muito aqui”, disse.

Na mesma via, a comissária Cassiana  Ferraro, 37, disse que “usou todos os métodos” para conseguir dormir com a música alta. “Coloquei protetor de ouvido, fechei as janelas e tomei maracujina para apagar”, conta. Apesar disso, ela não condena a realização da festa no local. “Acho legal, é um lugar central”.

Procurada, a prefeitura afirmou que o Carnaval da 23 de Maio “foi um sucesso de público e organização” e que “outros aspectos” serão avaliados. Segundo a gestão Doria, o evento foi debatido com associações de moradores e com o Ministério Público.

A administração nega também ter havido problemas com ambulâncias ou mudança de rotina no Hospital Municipal do Servidor Público.

O tumulto na região da Bela Vista e do Paraíso contrastou com a relativa calmaria na Vila Madalena (zona oeste), palco de diversas confusões em festas passadas.

Ali, um quadrilátero foi isolado por grades, e moradores tinham que apresentar até comprovante de residência para entrar –para surpresa de alguns pedestres que se queixaram da restrição de acesso.

Comerciantes chegaram a reclamar do pouco movimento. “Na semana de pré-Carnaval estava mais agitado que agora”, afirmou Shirley Yumi, dona de um café na região.

Angela PinhoMarina Estarque
Colaboraram ARTUR RODRIGUES e FABRÍCIO LOBEL
SÃO PAULO
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