Pancadões universitários crescem e tiram sono de moradores em SP

Fonte (original): Folha de http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/08/1804648-pancadoes-universitarios-crescem-e-tiram-sono-de-moradores-em-sp.shtml

LEANDRO MACHADO
DE SÃO PAULO

19/08/2016 02h03

Os chamados “pancadões universitários”, com milhares de jovens fechando ruas, têm tirado o sono de moradores do entorno de grandes faculdades de São Paulo e mobilizado tanto o governo do Estado como a prefeitura.

Para tentar conter os eventos, a Polícia Militar, do governo Geraldo Alckmin (PSDB), tem desobstruído ruas, enquanto a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) aplica multas em bares próximos às universidades. Nada disso, porém, contém o avanço desses pancadões.

As festas ocorrem à noite, geralmente às sextas-feiras. Começam assim: jovens saem das aulas e vão para os bares no entorno das universidades particulares. Carros com som altíssimo estacionam na região.

 

 

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Ambulantes se aproximam e vendem mais bebida. As ruas então são fechadas por milhares de pessoas.

Quem mora perto de grandes faculdades reclama que não consegue dormir quando tem pancadão. “É incrível a altura do som. Minha casa trepida”, diz a aposentada Ivani da Costa, 77, que vive em um prédio ao lado da universidade São Judas Tadeu, na Mooca (zona leste).

Em duas ruas ao lado, há 19 bares focados em estudantes. Muitos deles foram multados no semestre passado em operações da prefeitura e da Polícia Militar. Foram punidos por excederam o barulho permitido para a área.

Algumas festas só terminam após a Polícia Militar jogar bombas de efeito moral. Nesta segunda (15), isso ocorreu na frente da FMU, na Liberdade (centro). Uma multidão de estudantes tomava a rua. Após as bombas da PM, muitos alunos correram para dentro dos bares, que acabaram depredados.

Nas operações, policiais e fiscais da prefeitura passam semanas visitando os arredores das universidades, quase diariamente. Assim, procuram inibir novos pancadões.

No início, dá certo. Semanas depois, porém, as festas retornam às ruas. Na São Judas e na Unicid, que passaram por operações no último semestre, os pancadões voltaram a acontecer neste mês, logo depois das férias.

Fenômeno parecido ocorreu em bairros da periferia —onde os pancadões cresceram. Os eventos eram reprimidos e, tempos depois, retornavam. Dados do ano passado, divulgados pela PM, apontam que há em São Paulo cerca de 440 locais onde pancadões são frequentes.

Neste ano, a prefeitura aplicou 300 multas relacionadas a festas desse tipo, tanto em bares como em motoristas flagrados com o som alto. No total, a arrecadação chegou a mais de R$ 1 milhão.

CERVEJADAS E FURTOS

Nas imediações da tradicional PUC (Pontifícia Universidade Católica), em Perdizes, zona oeste, os pancadões cresceram neste ano. Cervejadas e festas, organizadas por alunos na rua da universidade, ficaram tão grandes que começaram a atrair gente que não estuda na PUC. Passaram a durar cada vez mais e invadiram as madrugadas de sábado.

A rua, porém, também é residencial. Pancadões começaram a incomodar moradores por causa do barulho vindo dos carros, do tráfico de drogas e do fechamento de vias.

“As festas ficaram tão grandes, com tanta gente, que eu parei de ir. Começou a ter furtos, muita bagunça”, conta Clarice Monteiro, 22, aluna do 3º ano de direito.

Neste mês, prefeitura e PM têm feito operações na região. Em uma delas, no dia 5, a reportagem contou seis bares multados –a primeira é de R$ 10 mil. Na terceira, o estabelecimento é fechado. Nas sextas-feiras seguintes, temendo novas multas, os bares fecharam mais cedo, por volta das 19h.

MULTAS

Para não ter que encerrar suas atividades após 35 anos na frente da PUC-SP, o bar Terceira Aula decidiu fechar mais cedo todas as sextas. Antes, funcionava até a 1h. Agora, por volta das 19h, Rodrigo Rivera, 39, baixa as portas, e nenhum aluno entra mais.

Motivo: medo de novas multas por causa dos pancadões na rua Ministro Godói, em Perdizes (zona oeste). O estabelecimento recebeu duas infrações em uma semana, nos dias 1º e 5 de agosto. No total, Rivera, dono do Terceira Aula, terá que pagar R$ 16 mil por causa do excesso de barulho. Se receber mais uma, será lacrado por fiscais da prefeitura, como determina a lei do silêncio.

Donos dos bares próximos de grandes universidades particulares reclamam por serem alvos de operações da gestão Fernando Haddad (PT), que tenta coibir os pancadões. Os empresários dizem que não são responsáveis pelos eventos e que até têm prejuízo por causa deles.

Rodrigo Rivera recebeu a primeira multa de manhã, às 10h. “Eu tinha acabado de abrir, era de manhã. Havia poucas pessoas no bar”, conta. No dia, um fiscal do Psiu (Programa de Silêncio Urbano) o multou por excesso de barulho. “Não tenho nem som dentro do bar. Vou ter que pedir para meus clientes falarem por mímica”, diz.

Tiago Feitosa, 19, dono de outro bar na rua da PUC, foi multado no mesmo dia e horário. “Tinha uma mesa ocupada [no bar]. Os estudantes estavam só conversando”, diz ele. Três dias depois, foi multado novamente, desta vez à noite. “Me recuso a pagar. Fecho o bar, mas não pago”, diz.

No último dia 5, a Folha acompanhou uma operação da prefeitura e da PM contra o pancadão da PUC. Um dos comerciantes, indignado com a infração, ameaçou um fiscal do Psiu. Depois, pediu desculpas.

A prefeitura argumenta que as multas por excesso de barulho podem ser aplicadas em qualquer horário, caso o ruído do local esteja acima do que é permitido na lei. O limite é calculado de acordo com as características do local. Como a PUC fica em uma área residencial, esse limite é menor do que em regiões comerciais.

PREJUÍZOS

Proprietários de bares argumentam ainda que, enquanto eles são multados, camelôs que vendem bebidas durante os pancadões acabam passando impunes. “Ninguém multa ambulante, multam nossos bares porque temos CNPJ”, diz Alex de Almeira, 38, dono de uma bar perto da universidade São Judas, na Mooca (zona leste).

Os empresários dizem que os pancadões costumam dar prejuízos. “As pessoas preferem ficar na rua, compram bebidas dos camelôs. Os bares ficam vazios”, diz Cristiane Vieira, 32, dona de um estabelecimento na rua da Unicid, no Tatuapé (zona leste).

A gestão Fernando Haddad afirma que os fiscais também recolhem mercadorias de vendedores ambulantes. A prefeitura só pode multar camelôs regularizados que vendam produtos não permitidos.

OUTRO LADO

As universidades particulares que têm pancadões nas ruas de seu entorno afirmam que não possuem nenhuma responsabilidade sobre eventos fora de seus prédios. De acordo com as universidades, como os pancadões ocorrem fora dos prédios, cabe aos órgãos públicos fiscalizar e combater os excessos.

Por sua vez, a prefeitura informou que fará novas operações de fiscalização em locais onde pancadões voltaram a ocorrer, como nas imediações das universidades São Judas Tadeu, na Mooca, e Unicid, no Tatuapé.

Em nota, a PUC de São Paulo afirma que “festas no entorno de suas dependências extrapolam a sua possibilidade de atuação”. Diz ainda que “a demanda pela execução de ações cabe a órgãos competentes do poder público”.

Ela afirma também que fez reuniões com prefeitura e polícia para garantir “bom relacionamento com a vizinhança”. A PUC não autoriza mais eventos de alunos dentro do campus após as 23h. Já a universidade São Judas Tadeu afirma que não incentiva “de forma alguma” os pancadões e que “preza pela ordem pública” do bairro da Mooca. Também aponta que a responsabilidade pelos eventos em vias públicas é dos órgãos públicos.

A Unicid afirma que tenta manter seus alunos em sala de aula, por meio de “rigoroso” registro de presença. A Uninove não comentou os pancadões que ocorrem na rua de seu campus na Barra Funda, zona oeste.

Sobre a ação da Polícia Militar na segunda-feira (15), que acabou usando bombas para dispersar alunos de uma festa, a FMU afirma que “repudia qualquer ato que possa comprometer a integridade física e psicológica de seus estudantes e causar transtorno à população”.

Em nota, a universidade também diz que faz ações para “conscientizar e contribuir para que os jovens desenvolvam uma atitude socialmente responsável”.

GARRAFAS

A Secretaria da Segurança Pública, responsável pela PM, afirma que, no caso da ação na FMU nesta semana, participantes da festa jogaram garrafas em policiais. Os agentes, diz a nota, estavam tentando efetuar uma prisão após um roubo.

A pasta afirma que a atuação da Polícia Militar impediu a realização de pancadões na região da PUC. A polícia também tem monitorado redes sociais para tentar se antecipar aos eventos.

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