Falta de compreensão sobre dinâmica dos ruídos leva a se tomar vítima por algoz

Waldir de Arruda Miranda Carneiro (13/10/12)

Vejam a lamentável matéria publicada na Folha de S. Paulo dia 13/10/12, caderno cotidiano, p. C4, visivelmente carecedora de melhor pesquisa e estudo.

Ausência de informação sobre aspectos comezinhos de acústica (que podem levar um morador de um edifício a achar que certo barulho se origina no andar de cima quando na verdade é emitido dois andares acima, por exemplo) podem levar um examinador superficial e despreparado a entender que não há perturbação pelo simples erro de identificação do seu correto emissor.

Daí se abre espaço para as mais equivocadas ilações sobre motivos psicológicos das insistentes reclamações tidas (em completo equívoco) como infundadas.

É claro que há muita gente “louca” por aí. Mas é bem maior o número de pessoas de bem que são vítimas da má educação daqueles que não compreendem que seus direitos terminam onde começam os dos outros.

Mais do que nunca, se faz necessário esclarecer os membros da sociedade sobre os verdadeiros aspectos desse grave problema de saúde pública e, principalmente, de educação.

Segue a matéria em questão:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1168670-vizinho-pode-tornar-a-vida-um-inferno-diz-alvo-de-reclamacao.shtml

13/10/2012-04h00

Vizinho pode tornar a vida um inferno, diz alvo de reclamação

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DE SÃO PAULO

“Eu me impressionei com o poder que um vizinho tem para tornar a vida da gente um inferno”, diz o engenheiro Luiz Souza, 27, morador de um prédio na Barra Funda.

30% das queixas de barulho não existem, dizem síndico
Análise: Quem tem menos prazer e lazer quer mais é destruir o prazer do outro

Ele recebeu uma notificação listando cinco datas em que supostamente incomodou o vizinho. “Em uma delas, não tinha ninguém em casa, estávamos viajando.”

Eduardo Anizelli/Folhapress

A pesquisadora Aline Braga, que usa chinelo em casa para evitar reclamações

A pesquisadora econômica Aline Braga, 25, moradora do Morumbi, que usa chinelo em casa para evitar reclamações

No caso do empresário Víktor Waewell, 27, a vizinha chegou a chamar a polícia e fez 20 reclamações em seis meses, por causa da “televisão alta demais”. Ele teve que explicar aos policiais que nem tinha televisão em casa.

Outro que chamou a polícia foi um morador da Granja Julieta (zona sul), que já havia até brigado com o vizinho no elevador, segundo o síndico do prédio, Aldo Busuletti. “Quando a polícia chegou ao apartamento, viu que todos estavam dormindo.”

“Diante da prova, mesmo vendo que estão erradas, é muito difícil as pessoas pedirem desculpas”, diz Busuletti.

Enquanto isso, ambos vivem no incômodo: um, sofrendo com o barulho que “ouve”; o outro, sofrendo com a reclamação e “pisando em ovos” em casa.

Foi o que aconteceu com a pesquisadora econômica Aline Braga, 25, moradora do Morumbi. “Estava um baita silêncio aqui. Eram 21h e eu estava apenas organizando a casa, quando a vizinha interfonou reclamando.”

Ela agora só anda em casa de chinelos.

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http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1168669-30-das-queixas-de-barulho-nao-existem-dizem-sindicos.shtml

13/10/2012-04h00

30% das queixas de barulho não existem, dizem síndicos

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CRISTINA MORENO DE CASTRO
DE SÃO PAULO

“Escuta! Escuta! Está ouvindo?”, insistia a moradora de um condomínio de Moema, zona sul paulistana. Mas só havia o silêncio absoluto.

Das 2h às 4h da madrugada, o síndico profissional Aldo Busuletti, 49, se viu sentado no sofá do apartamento da moradora, à espera dos barulhos que o vizinho de cima sempre provocava, segundo ela. Não ouviu nada.

Vizinho pode tornar a vida um inferno, diz alvo de reclamação
Análise: Quem tem menos prazer e lazer quer mais é destruir o prazer do outro

Antes disso, Aldo já havia advertido e multado o morador de cima (R$ 380), atendendo às reclamações incessantes da vizinha. Como não funcionou, decidiu testemunhar os ruídos e se deslocou de Santana, a 14 km de distância, até aquele sofá.

Karime Xavier/Folhapress

O síndico profissional Aldo Busuletti, que lida com reclamações sobre barulhos

O síndico profissional Aldo Busuletti, que lida com reclamações sobre barulhos

“Tive que pedir desculpas ao morador de cima, retirar sua multa e converter em advertência para a moradora que sempre reclamava.”

Assim como ele, outros síndicos e administradoras responsáveis por 1.500 dos cerca de 20 mil condomínios na capital paulista ouvidos pela Folha estimam que até um terço das reclamações de barulho –as campeãs em todos os condomínios– sejam fruto da imaginação.

“Acho que a pessoa trabalha o dia inteiro na rua, ouve tanta buzina e agito, que à noite sonha com barulho”, analisa Aldo, que gerencia 37 condomínios da cidade e atua como síndico profissional há 20 anos. “É estresse.”

O psiquiatra Elko Perissinotti, do Hospital das Clínicas da USP, atribui os “ruídos fantasmagóricos” ao “estresse, angústia, depressão e frustrações” das pessoas.

HIDROMASSAGEM

Os barulhos “imaginários” mais comumente ouvidos são o arrastar de móveis ou saltos de sapato batendo no chão, madrugada adentro.

Mas a reportagem ouviu casos que vão de banheira de hidromassagem à TV em volume muito alto.

Há vizinhos que chegam a chamar a polícia ou até brigam fisicamente.

Para tentar contornar o problema, os síndicos apelam para várias táticas. Alguns chegam a inspecionar os apartamentos, em busca da fonte dos barulhos.

Segundo Márcia Romão, gerente de relacionamento da Lello Condomínios, não é incomum que o “reclamão” acabe, ele próprio, multado por perturbação do sossego.
José Roberto Iampolsky,

diretor-geral da Paris Condomínios, diz que, quando o síndico não sabe como resolver o impasse, ele pode convocar uma assembleia extraordinária para que os condôminos julguem, após ouvir os envolvidos.

“No fim, até os dois vizinhos podem ser multados”, explica.

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http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1168674-analise-quem-tem-menos-prazer-e-lazer-quer-mais-e-destruir-o-prazer-do-outro.shtml

13/10/2012-04h00

Análise: Quem tem menos prazer e lazer quer mais é destruir o prazer do outro

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DE SÃO PAULO

Viver em condomínios não difere em nada da vida em família, no trabalho, no lazer.

Os desentendimentos dizem respeito ao campo da cultura, da civilização, da história do homem e de seu tempo.

30% das queixas de barulho não existem, dizem síndico
Vizinho pode tornar a vida um inferno, diz alvo de reclamação

Barulhos de quaisquer espécies, intensos ou pequenos ruídos, verdadeiros ou imaginários, ativam nossos focos de ira e intolerância; podemos dizer, egocentrismo e autoritarismo, ou ainda, narcisismo narcotizado com autoamputação existencial e inveja.

Pouco importa se a festa do vizinho é escandalosa ou bem comportada, se é antes ou depois das 22h, o fato é que quanto menos prazer e lazer temos na vida, mais temos que destruir o do outro.

Pior ainda, se forem jovens e mulheres bonitas festejando, pois aí nos vem a imagem da maconha e do bacanal que nunca tivemos; “toda uma vida que poderia ter sido e que não foi” (Manuel Bandeira).

Nem sei se deveríamos falar das grandes importunações, uma vez que a falta de limites e respeito é tão óbvia que tangencia o comportamento psicopático perverso.

Mas o que dizer das queixas do barulho do salto alto da moça do andar superior que está chegando de uma festa, ou mesmo indo para o trabalho? Quantos segundos dura esse ruído (invejado) entre o quarto e a porta de saída?

Os maus-tratos da solidão e do inexorável sofrimento humano nos deixam enlouquecidos e quem paga a conta de nossas contradições é sempre o vizinho.

Qualidade de vida sem pequenos ruídos (mesmo os das profundezas do inconsciente) não existe.

ELKO PERISSINOTTI é psicanalista, psiquiatra e vice-diretor do Hospital-Dia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

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