Poluição sonora afeta alunos e professores em escolas públicas

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Pesquisa aponta que a poluição sonora pode afetar o rendimento de professores e alunos FOTO: J L ROSA

Os ruídos provocados pelo trânsito, por linhas de trem e até por aviões podem causar mudanças no comportamento de alunos e desgaste das cordas vocais em professores, conforme estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Para se sobrepor às chamadas, perguntas e, por vezes, berros de 30 alunos reunidos dentro do mesmo ambiente, falta voz. Falta mais ainda para competir com o barulho do lado de fora, onde ruídos de carros se misturam aos das caixas de som e até de aviões que eventualmente sobrevoam o espaço aéreo, por vezes, tão próximo.

Essa é a realidade dos professores da Escola Municipal Cláudio Martins de Ensino Fundamental, na Avenida João Pessoa. A proximidade com o aeroporto coloca a unidade sob uma rota de aviões, que transitam acima da área a uma distância de apenas 180 metros. Uma linha de metrô elevado também situada perto da escola contribui para a ‘sinfonia’ externa, uma vez que o trem não é subterrâneo, e o barulho é maior.

O impacto da poluição sonora nesta e em outras duas unidades de ensino foi analisado em um estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC). Mais afetada que as demais, a Escola de Ensino Fundamental é alvo de picos de ruídos a cada 21 minutos, nos momentos em que os trens circulam ao lado da escola, e a cada 12 minutos, quando os aviões passam pelo local no período de maior movimento. A variação medida é de 76 a 83 decibéis, de acordo com a ala da unidade.

Comportamento

Além do potencial prejuízo ao rendimento dos estudantes, o barulho em excesso pode vir a acarretar problemas de saúde aos profissionais da educação. De acordo com um dos coordenadores da pesquisa, o professor Mário Azevedo, educadores revelaram, principalmente, problemas de rouquidão, estresse e danos nas cordas vocais, que atribuíram à poluição sonora.

Mudanças de comportamento incluindo agitação, dificuldade de aprendizado, perda de concentração e distração visual durante as aulas foram os efeitos observados nos estudantes, em resposta aos ruídos. A curta distância entre a escola e a linha de metrô também agrega a vibração como um aspecto negativo. O fenômeno pode ter impacto na concentração e quietude do corpo, mesmo quando se dá de forma pouco perceptível.

“A nossa ideia é identificar o que pode ser feito para corrigir o problema. Escolas privadas com mais recursos conseguem fechar as janelas e usar ar-condicionado, o que é mais difícil de acontecer em escolas públicas”, compara Mário Azevedo. Para a Escola Municipal Cláudio Martins de Ensino Fundamental, a solução do problema exigiria uma completa reestruturação ou até mesmo mudança de lugar. “Construir barreiras de acrílico nas laterais da linha do trem para isolar o som até ajudaria a amenizar o barulho alto, mas não eliminaria a vibração, nem o som da passagem de aviões”, explica.

Em nota, a Secretaria Municipal da Educação (SME) informa que está realizando estudo para elaboração e execução da requalificação da Escola Municipal Cláudio Martins, que levará em consideração os elementos externos.

Similares

“Boa parte da sala não tem isolamento acústico, e fica aberta a qualquer barulho que apareça. As próprias salas são lotadas, então gera mais ruído ainda”, revela Mikaelton Carantino, professor de Matemática de uma escola estadual que não foi abordada pela pesquisa da UFC.

Os professores da unidade, que também é situada próxima ao aeroporto, têm de lidar com problemas similares aos observados na Escola Municipal. “É avião, é trânsito, é carro de som passando. Até aquelas ‘bombinhas’ de São João soltam por aqui. Atrapalha demais”. De acordo com ele, o grande diferencial é observado nas salas de aula climatizadas, que proporcionam maior isolamento acústico.

Em cinco anos de atividade na escola estadual, Mikaelton já precisou tirar uma licença de três dias, ministrando medicamentos, para se recuperar de danos nas cordas vocais. “São 30 alunos em uma sala, e a voz do professor tem que sobrepor a deles. Acaba forçando. No fim do dia, ninguém consegue mais falar”, lamenta. O professor de Matemática descreve como “insuportável” o período em que nenhuma das salas era equipada com ar-condicionado.

Fluxo

Outra escola observada no estudo, de Ensino Médio, recebe ruídos de 67 decibéis gerados pela intensa circulação de veículos na BR-116, ao lado de onde a unidade foi construída. Na via, o fluxo registrado é de 1.656 veículos a cada 15 minutos, incluindo caminhões.

Uma escola de jardim da infância completa o trio de unidades educacionais abordadas pela pesquisa. Esta foi a menos afetada por barulhos do trânsito, por estar situada em área residencial.

A escola apresentou, porém, uma característica peculiar: enquanto os ruídos externos contabilizam 73 decibéis, apenas 43 são percebidos no interior da construção. Isso se dá por conta das atividades das crianças, que emitem sons mais elevados, e de problemas estruturais de isolamento desses ruídos internos. “Identificamos que os alunos pequenos são mais barulhentos, com limites mais ‘frouxos’. Geram um ruído ensurdecedor para as professoras”, diz Mário Azevedo.

Fonte (original): Diário do Nordeste
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Por Bárbara Câmara (

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