Como o barulho causado por humanos ameaça animais e plantas

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Fonte (original): https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/05/06/Como-o-barulho-causado-por-humanos-amea%C3%A7a-animais-e-plantas

Murilo Roncolato – 06 Mai 2017

Pesquisa de universidade americana mostra que excesso de ruído em áreas protegidas afeta o comportamento de animais e o ciclo de vida de plantas

Uma pesquisa feita por uma universidade americana apontou que a maioria das áreas verdes protegidas nos Estados Unidos estão sob efeito do dobro de barulho que deveriam. A amostra evidencia que o excesso de ruído causado pelo homem – por meio de aviões e carros, por exemplo – não tem nada de inofensivo. O transtorno, diz o estudo, ameaça a vida de animais e plantas nessas regiões.

O trabalho – publicado nesta quinta-feira (4) na revista especializada “Nature” – é encabeçado pela ecologista acústica Rachel Buxton, da Universidade do Estado do Colorado. Ela e sua equipe partiram de dados coletados por um órgão público sobre o nível do ruído em 492 áreas protegidas no país, como parques.

Gaivota

Amplitude de barulho em 63% de áreas protegidas analisadas era o dobro do normal

Buxton e seu grupo descobriram que o barulho em 63% dessas áreas era duas vezes maior que o tolerável. O nível utilizado como referência para a medição é o som ambiente excluído barulhos provocados por ação humana. Segundo a pesquisa, em 21% dos locais analisados, o ruído captado foi até dez vezes maior que o normal.

A cacofonia desgovernada afeta diretamente a vida animal e, por consequência, também a de plantas. Como exemplo, Rachel Buxton cita o efeito na comunicação entre pássaros.

“Se você está acostumado a ouvir o canto de um pássaro a uma distância de 30 metros, agora você só consegue ouvir a 15 metros”, diz, referindo-se a locais com o dobro do barulho normal. No caso das áreas dez vezes mais ruidosas, o ouvinte teria de estar a menos de três metros.

Barulhos como os gerados por carros e aviões ainda afetam o comportamento animal, aumentando o estresse e alterando atitudes durante a busca por alimento. Já no caso das plantas, elas acabam afetadas pois o barulho pode fazer com que animais polinizadores – como abelhas, borboletas e aves – ou aqueles que se alimentam de vegetais (e acabam espalhando suas sementes) mudem suas rotas.

O estudo, segundo outro acadêmico consultado pela revista, é importante e inédito por ser mais amplo do que os que analisavam o efeito do ruído sobre a vida animal. “Ele colocou o barulho no mapa”, disse Clinton Francis, ecologista da Universidade Politécnica da California, ressaltando o fato de que a pesquisa de Buxton mede a amplitude sonora a que estão expostas estas áreas.

Ruído humano contra humanos#

O excesso de barulho faz com que o ser humano nem se lembre de como soa a natureza e acelera o desaparecimento de áreas silenciosas no mundo.

Em 1999, a OMS (Organização Mundial da Saúde) elaborou um “manual” a respeito de ruído ambiental. Entre aquilo que chama de “efeitos adversos” nos humanos, estão a deficiência auditiva, distúrbios de sono, problemas cardiovasculares e ainda problemas psicológicos.

Alguns países no mundo adotaram legislações específicas contra o problema que, além de afetar a paz em parques e áreas remotas, causam especial dano nas áreas urbanas, onde o barulho causado pelo homem atinge seu maior desempenho.

Como já mostrado em especial do Nexo (“Os ruídos das cidades”), o Brasil não conta com legislação federal específica, apenas um entendimento de que quem “causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana” pode ser punido.

Há, no entanto, limites da amplitude de ruído determinado pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Ela estabelece, por exemplo, que em área residencial com hospitais e escolas, os limites são 45 dB (decibéis) à noite e 50 dB de dia, e em uma totalmente industrial aceita-se até 70 dB (dia).

O limite do ruído

Gráfico limites de ruídos ABNT

“O ruído é o componente ambiental que mais facilmente nos dá a percepção da qualidade ambiental e como tal de qualidade de vida. É preciso ter em mente que ele resulta de fontes sonoras, mas também de organização do território”, disse Bento Coelho, engenheiro e professor na Universidade de Lisboa, ao Nexo.

“O planejamento é fundamental. E o Brasil está se atrasando em relação a muitos outros países que já incluem o ruído como parte importante do planejamento urbano.”

Mapas sonoros#

Uma medida adotada em países como Portugal e Chile é a de incentivar seus municípios a elaborarem “mapas de ruído” ou “cartas acústicas” que medem o nível de ruído distribuído em uma cidade. O resultado são levantamentos que ajudam o governo local a direcionar o crescimento urbano a fim de reduzir os danos da poluição sonora.

Foto: Reprodução/Proacústica

Ação de organização contra poluição sonora colocou protetores de ouvido em personagens de escultura

Ação contra poluição sonora colocou protetores de ouvido em personagens de escultura

Em São Paulo, uma organização fez uma ação recente, colocando protetores de ouvido nos personagens da obra “Monumento às Bandeiras”, de Victor Brecheret.

“Ao longo dos anos, o ruído pode provocar derrame, infarto, pode até matar. O problema é a dose”, disse Marcos Holtz, coordenador na ONG ProAcústica, ao jornal “Folha de S. Paulo”. “Na OMS tem muitos estudos sobre isso. Não é a toa que a poluição sonora passou a poluição da água e já é o segundo pior tipo de poluição ambiental, perde só para a poluição do ar.”

Na capital paulista, existe um mapa de ruído em elaboração. Iniciado na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, o trabalho deve, no entanto, ser concluído apenas daqui sete anos.

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