Canto de galo, latidos e cheiro ruim tiram sossego em bairro de Campinas

Moradores reclamam desde junho de ‘hábitos’ de um vizinho aposentado.
Homem tem animais em casa e apartamento e tem perfil de acumulador.

Alguns animais foram flagrados do lado de fora da casa pela vizinha (Foto: Maria Soares / Arquivo Pessoal)

Os tapumes presos às grades da casa no bairro Botafogo, em Campinas (SP), tentam esconder dos olhos o que os ouvidos e o nariz não conseguem negar. Pelas frestas e nas janelas com tela é possível ver alguns cães e gatos e, próximo ao portão da rua, o rastro de urina dos animais que “moram” na residência. Desde junho, moradores convivem com o mau cheiro e os latidos sem hora e, mais recentemente, a cantoria de um galo tem contribuído para tirar o sossego de quem vive ali. “É o dia inteiro de latidos e a madrugada também. A gente não aguenta os barulhos. É um inferno”, conta a vizinha Maria Soares.
Os animais e o problema pertencem a José Antônio Prado, que seria um aposentado segundo os moradores. Prado mora em um prédio em frente à casa onde ficam os bichos. No apartamento ele também teria cerca de 20 gatos. A quantidade exata de animais não pôde ser confirmada porque ele não foi encontrado, nem nos locais e nem no telefone celular, pela reportagem do G1, mas a vizinha estima que sejam ao menos 25 cachorros na casa, fora os felinos. “Ele é agressivo e violento, não pode falar com ele que ele te agride”, conta Maria.
As reclamações dos moradores vêm sendo feitas desde junho, quando o causador da discórdia teria começado a acumular os bichos. Segundo Maria, um abaixo-assinado com cerca de 160 assinaturas foi preparado e 15 denúncias foram feitas no Centro de Controle de Zoonoses da cidade. Até boletins de ocorrência por conta das agressões aos vizinhos foram registrados na Polícia Civil. “Nós pagamos impostos e não somos obrigados a passar por isso”, revolta-se Maria.
Galo acorda bebê do vizinho
Um dos moradores do prédio, que preferiu não ter a identidade revelada, conta que, desde que o galo passou a integrar o grupo de animais, o seu bebê, que ainda não completou 2 meses de vida, precisa dormir na cozinha.
“O galo canta das 2h às 9h. O bebê tem que dormir no carrinho. A cozinha é o lugar mais distante do barulho”, conta. Em uma gravação em áudio (que pode ser conferida ao lado), o morador registrou os latidos e a cantoria do galo durante a madrugada e, segundo ele, com as janelas de casa fechadas. Dá para imaginar o incômodo durante o horário que deveria ser de descanso para a família. O pai da criança afirmou ter registrado um boletim de ocorrência por perturbação de sossego e tentativa de agressão contra o aposentado, e ainda protocolou a reclamação na Prefeitura de Campinas.
A varanda do estudante Victor Kenje fica bem em frente à casa onde vivem os bichos. Ele reside no edifício há 19 anos e nunca tinha passado por nada igual. “Já teve perturbação com churrasco do vizinho, mas nada assim. O galo canta inclusive durante o dia, de hora em hora, praticamente”. Ele diz que ouve brigas entre os animais. “Briga de cachorro acontece sempre, principalmente no calor. Ele grita com os animais. Sempre tem mal cheiro e acumula pombos. Quem gosta de animais não faz isso”, desabafa.
A síndica do prédio, Nadir Alves, confirma o problema. Segundo ela, Prado já recebeu duas advertências e uma multa de um salário mínimo por causa do mau cheiro causado pela urina dos gatos no apartamento e pelo incômodo aos vizinhos.
“Vieram pessoas para tentar adotar e ele não doa. Ele falou que não vai pagar a multa e o prédio vai entrar na Justiça”, afirma a administradora. O hábito de acumular, segundo ela, chega até a garagem do edifício, onde o aposentado guarda “tralhas e entulho”.
De acordo com a Prefeitura, o caso do aposentado vem sendo tratado como o de um acumulador. O diretor do Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal (DPBEA), Paulo Anselmo Nunes, recebeu as denúncias e afirmou que vai solicitar à Justiça uma autorização para entrar na residência, já que a Vigilância Sanitária tentou vistoriar o local, mas não conseguiu. “Tentamos entrar cinco vezes no imóvel, mas ele não atende. Se constatarmos maus-tratos, aplicaremos a lei ambiental”, explica Nunes.
O local não é considerado canil e gatil pelo Departamento de Urbanismo porque Prado não comercializa os bichos, só acumula. Segundo Nunes, 22 casos de acumuladores de animais que chegaram ao DPBEA estão em andamento em Campinas, a maioria denunciada este ano.”Onde conseguimos entrar, os proprietários foram notificados e multados pela Vigilância. Eles precisam reduzir a quantidade de bichos ou entraremos com uma ação judicial”, explicou. O valor da multa não foi informado.
Sobre os boletins de ocorrência registrados contra Prado, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que ele e os moradores envolvidos prestaram depoimento. O caso foi encaminhado para o Juizado Especial Criminal. Em nota, a SSP explicou que a “investigação apura naturezas consideradas pela lei como de menor potencial ofensivo: ameaça (artigo 147 do CP), injúria (artigo 140) e o artigo 42 da Lei das Contravenções Penais, que é perturbação do trabalho ou sossego alheio”.
                                                             Acumuladores
O problema dos acumuladores, segundo Nunes, é que não basta tirar os animais deles. “É um problema de saúde. A pessoa volta a acumular. Estamos pensando em uma abordagem diferente”, conta. O DPBEA está estudando um projeto que reúna a orientação de desapegar dos animais a um tratamento psicológico e psiquiátrico, mas não há um prazo para que ele seja aplicado nos casos da cidade.
Para a psicóloca psicoterapeuta Welleny Gomes Bravo, uma pessoa acumuladora costuma ser compulsiva em estado grave. “É diferente de um colecionador, que tem orgulho de mostrar e não oferece prejuízo social. O acumulador não mostra. É um problema psicológico ligado a algum trauma com origem na infância e adolescência e piora com o tempo. É uma necessidade de preenchimento”, explica.
A especialista disse, ainda, que os acumuladores costumam se esconder e se enfurecem quando alguém diz que ele está errado ou que ele precisa de ajuda. O tratamento deve ser psicológico e também psiquiátrico. “Não pode tirar os animais de uma só vez, porque pode causar depressão. Precisa ser um processo lento. A dificuldade é aderir ao tratamento”, afirma.

PUBLICADO EM 23/11/2014
Patricia Teixeira
Fonte (original): G1 – http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2014/11/canto-de-galo-latidos-e-cheiro-ruim-tiram-sossego-em-bairro-de-campinas.html

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